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Mães mais que [im]perfeitas

A mãe que (também) tem sexo, responde

Depois da semana passada termos aberto as hostilidades com as vantagens em falarmos de sexo, especialmente com os nossos parceiros, esta semana vamos responder a uma questão (ou várias) que nos é endereçada pela nossa querida Mula.

Até que ponto é que os pais devem esconder totalmente o sexo dos filhos e parecerem assexuados aos olhos dos filhos? Sim... porque lembro-me bem que me arrepiava a ideia de que os meus pais poderiam ainda ter sexo, mas a verdade é que eu vim ao mundo... Por que será que o sexo dos pais incomoda tanto os filhos?

 

A sexualidade tem uma componente social. Nessa componente, encerram-se as regras, as crenças, as formas de avaliar socialmente o acto sexual e o peso que este tem na estrutura social. É neste campo que encontramos talvez a resposta mais satisfatória para a questão colocada.

 

A nossa sociedade ocidentalizada tem um enfoque patriarcal, em que o homem ocupa o papel central da sociedade. Apesar de as normas sociais estarem a alterar-se, ainda residem resquícios dessa mentalidade focada no homem. Por norma, as sociedades patriarcais têm uma moral sexual mais reprimida, por oposição ao que se conhece das sociedades matriarcais. 

Particularmente, na nossa sociedade, acresce a moral sexual de influência judaico-cristã, fortemente enraizada nos nossos comportamentos. Desde o momento em Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso, por a mulher ter conduzido o homem ao pecado original, ao facto de Maria ter concebido sem pecado, rapidamente se percebe que o sexo é entendido como algo pecaminoso. 

A representação social do sexo ainda guarda muitos aspectos de avaliação negativa, ligados à natureza criminosa do comportamento humano, às tendências desviantes e às doenças que lhe estão associadas. A parte dedicada à exploração da sexualidade de forma equilibrada é ainda muito pequena, pouco difundida e relativamente homogénea no que toca às áreas em que pode ser "falada": intimidade do casal e reprodução.

Esta cultura de pecado, de erro, a par de uma santificação da paternidade, faz com que nos seja complicado encarar a natureza sexual das relações dos nossos progenitores. 

Na verdade, até a nossa sexualidade é difícil de aceitar! Muitas vezes, sentimos vergonha dos nossos impulsos, dos nossos desejos, das nossas fantasias, ao ponto de reprimirmos a resposta sexual, conduzindo a situações extremas de falta de desejo, dificuldade em atingir o orgasmo, ou até mesmo de nos envolvermos completamente na expressão da sexualidade.

Como reflexo desta cultura de pecado, os nossos pais não nos educaram para encaramos a sexualidade como algo natural. Aliás, até há 50 anos, o diálogo sobre sexualidade era inexistente nas famílias. Hoje em dia, considera-se que a educação deve ser sexualizada, tendo os pais como primeiros educadores, contudo há uma despreparação geral para o fazer livre de preconceitos e noções pecaminosas.

Portanto, parece-me que nos esperam ainda muitos anos em que os nossos filhos terão alguma dificuldade em aceitar os pais como seres sexuados. É mais simples imaginá-los assexuados, do que ter que lidar com as expressões de carinho, proximidade e intimidade que possam ter. 

 

Respondendo mais directamente, não devemos parecer assexuados aos nossos filhos. Contudo, essa noção é totalmente diferente de os expôr à nossa expressão da sexualidade. É importante que percebam que os pais têm um relacionamento completo, íntimo e que têm o seu espaço privado. O sexo deverá ser inserido nessa esfera. O mais difícil talvez seja encontrar o equilíbrio entre manter um diálogo aberto sobre o tema com os filhos, de forma a que compreendam que é um comportamento normal do ser humano, ao invés de o mascararmos com conceitos relacionados com o fruto proibido, o pecado, o erro, o sujo, etc. Será através da educação que conseguiremos naturalizar e tornar o sexo um domínio de partilha familiar. Isso trará uma imagem mais adequada dos pais enquanto seres sexuados e será também uma forma de protecção para os jovens, no que toca à adopção de comportamentos sexuais seguros e equilibrados.

 

Mas como fazê-lo?

 

Não percam a resposta na próxima semana... Como falar de sexo com os nossos filhos.

 

 

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Header original da Mula com ilustrações de Inslee Haynes e Emily Donald

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